CC | CASA E COR
Journal · Color

A casa perdeu o medo da cor

Depois de anos de bege, os interiores voltaram a querer sentir alguma coisa

Sala colorida com sofá laranja, almofadas rosa e pink, tapete estampado e obras de arte coloridas na parede

CC | Casa e Cor

Eu tenho a impressão de que, durante alguns anos, alguém decretou que uma casa sofisticada precisava falar baixo.

E ninguém nos avisou oficialmente.

Simplesmente aconteceu.

De repente, abríamos uma revista e lá estava ela.

A sala bege.

Sofá bege. Tapete cru. Parede off-white. Madeira clara. Uma poltrona numa tonalidade sofisticadíssima chamada provavelmente areia molhada de alguma praia escandinava.

Sobre a mesa, três livros.

Em cima deles, um vaso.

Dentro do vaso, um galho.

Um.

Era bonito.

Aliás, continua sendo bonito.

O problema nunca foi o bege.

O problema foi quando começamos a acreditar que bom gosto e ausência de cor eram praticamente a mesma coisa.

E eu desconfio profundamente de qualquer regra estética que faça todo mundo morar igual.

Eu gosto de casas que entregam alguma coisa sobre a pessoa

Você entra e imediatamente percebe.

Aqui mora alguém que gosta de livros.

Ali mora alguém que viaja.

Aquela pessoa claramente não consegue passar por uma feira de antiguidades sem comprar alguma coisa.

Outra tem uma relação perigosíssima com cerâmica.

E existe aquela criatura que vê um sofá laranja e, em vez de pensar "será que vou enjoar?", pensa "meu Deus, onde eu coloco?".

Eu tendo a confiar mais nessa pessoa.

Porque cor também conta história.

E uma casa completamente protegida de qualquer escolha arriscada pode acabar protegida justamente daquilo que a tornaria memorável.

Mas como fomos parar no bege?

Não foi culpa de uma única tendência.

Nas últimas décadas, várias estéticas foram se encontrando.

O minimalismo ganhou força. O design escandinavo se espalhou pelo mundo. Vieram os interiores japoneses, depois o Japandi, o desejo por materiais naturais, a madeira clara, o linho, o artesanal.

Até aí, tudo maravilhoso.

Só que a internet tem uma habilidade extraordinária para pegar uma boa ideia e reproduzi-la até ela perder o sentido.

A mesma sala começou a aparecer milhares de vezes.

E aí veio aquela estética que aprendemos a reconhecer antes mesmo de saber o nome.

Parede clara. Sofá orgânico. Mesa de centro de pedra. Bouclé. Madeira. Cerâmica.

Tudo muito calmo.

Tudo muito fotogênico.

Tudo estranhamente parecido.

O neutro deixou de ser uma escolha e virou uma fórmula.

E então alguém colocou um vermelho no meio

E foi quase um alívio.

Nos últimos anos, começamos a ver interiores recuperando cores mais intensas.

Vinho. Vermelho. Azul. Verde oliva. Amarelo manteiga. Rosa. Laranja.

Às vezes numa parede inteira.

Às vezes num sofá.

Às vezes apenas numa luminária vermelha colocada num lugar onde, teoricamente, ela nem deveria estar.

A internet chegou a dar nome para uma dessas ideias: unexpected red theory.

Basicamente, colocar um elemento vermelho inesperado num ambiente e perceber como ele pode acordar tudo ao redor.

Acho divertido.

Mas também acho engraçado termos precisado inventar uma teoria para descobrir uma coisa que artistas, estilistas e designers sabem há séculos: uma pequena quantidade de cor pode mudar completamente uma composição.

Rosa e laranja deveriam brigar. Mas não brigam.

Olha para essa sala.

Tem sofá laranja. Almofadas pink. Tapete rosa. Vermelho. Amarelo. Arte extremamente colorida.

E ainda existe uma quantidade enorme de verde entrando pelas plantas.

No papel, parece uma péssima ideia.

Na sala, funciona.

Por quê?

Porque cor não funciona sozinha.

Ela funciona em relação às outras.

O laranja do sofá aparece novamente dentro das obras.

O rosa do tapete sobe para as almofadas.

Os amarelos da arte conversam com o laranja.

E então as plantas entram com uma massa enorme de verde e fazem uma coisa maravilhosa: quebram a doçura do rosa e o calor do laranja.

Nada está perfeitamente combinado.

Está conectado.

E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Uma casa colorida não precisa ter muitas cores. Precisa saber o que fazer com elas.

Talvez a gente tenha desaprendido a olhar para a natureza

Porque existe outra coisa curiosa.

A natureza nunca teve medo dessa história de "muita informação".

Olha uma flor.

Rosa com verde. Laranja com verde. Vermelho com verde. Roxo com amarelo.

Tudo acontecendo simultaneamente e ninguém olha para uma bougainvillea e diz "eu teria usado uma paleta mais neutra".

Talvez por isso plantas funcionem tão bem em interiores coloridos.

O verde tem uma capacidade quase indecente de conviver com outras cores.

E não precisa necessariamente vir de uma planta.

Pode estar numa poltrona de veludo. Numa parede oliva. Numa cerâmica. Num tapete.

O verde consegue ser cor e quase neutro ao mesmo tempo.

Eu abusaria dessa informação sem nenhum remorso.

A arte pode escolher a cor da sala

Existe uma mania de fazer o contrário.

Primeiro decoramos tudo.

Depois olhamos para aquela parede vazia e pensamos: "agora precisamos de um quadro que combine."

Eu inverteria.

Às vezes uma obra pode ser justamente o começo.

Você se apaixona por uma pintura.

Dentro dela existe um rosa estranho, um pouco de ferrugem, verde, talvez azul.

Pronto.

A casa já começou a falar.

Não significa comprar uma almofada de cada cor presente no quadro. Por favor, não façamos isso.

Significa usar a obra como uma pista.

Talvez aquele vinho reapareça numa manta.

Talvez o verde apareça numa cadeira.

Talvez nada reapareça literalmente, mas a intensidade da arte dê permissão para que outros objetos também tenham presença.

Arte não precisa terminar uma decoração.

Pode começar uma.

E madeira também é cor

Essa é outra injustiçada.

Falamos "madeira" como se madeira fosse uma única coisa.

Não é.

Uma madeira clara muda completamente uma sala.

Uma nogueira escura muda outra vez.

Madeiras avermelhadas trazem calor.

Madeiras envelhecidas carregam manchas, variações, marcas e tons que nenhum catálogo de tinta consegue reproduzir exatamente.

Quando existe muita cor numa casa, madeira pode ser justamente aquilo que segura tudo.

Olha novamente para a sala.

Imagine aquele mesmo ambiente com todos os móveis brancos e superfícies brilhantes.

Seria outra história.

A presença de materiais naturais impede que a cor fique artificial.

É por isso que gosto tanto de misturar cores fortes com madeira, palhinha, linho, lã, couro.

Cor fica mais interessante quando existe matéria perto dela.

O problema não é usar muita cor

É usar cor sem hierarquia.

Se sofá, parede, tapete, cortina, almofada, luminária, quadro e cadeira estiverem todos gritando "olha pra mim", bom, a gente vai precisar de cinco minutos lá fora.

Alguma coisa precisa liderar.

As outras acompanham.

Pode ser o sofá.

Pode ser uma obra enorme.

Pode ser uma parede.

Pode ser um tapete extraordinário.

Escolha quem começa a conversa.

Depois deixe os outros elementos responderem.

É muito parecido com se vestir.

Você pode usar uma saia estampada, sapato vermelho, brincos enormes e uma bolsa colorida.

Pode ficar maravilhoso.

Mas existe uma diferença entre maximalismo e falta de edição.

A mesma coisa acontece dentro de casa.

E não, você não precisa pintar a sala de pink amanhã

Essa talvez seja a parte mais importante.

Trazer cor para casa não significa acordar num sábado, comprar três latas de tinta e colocar o relacionamento familiar em risco.

Começa muito antes disso.

Um livro com uma lombada vermelha. Uma luminária. Uma cerâmica azul. Uma manta vinho. Uma almofada rosa. Uma fotografia. Flores. Uma cadeira.

O bom desses objetos é que eles permitem experimentar.

Você coloca.

Convive.

Muda de lugar.

Descobre que aquele rosa que parecia completamente absurdo na loja fica maravilhoso ao lado da madeira que você já tinha.

É assim que uma paleta pessoal começa a aparecer.

Não escolhendo cinco quadradinhos numa cartela.

Vivendo com as cores.

Algumas casas ficam na nossa memória justamente por causa delas

Quando penso nas casas que realmente ficaram comigo, raramente lembro do tamanho exato da sala.

Lembro de sensações.

Uma cozinha amarela.

Uma parede azul.

Um sofá verde.

Uma sala completamente branca com uma única poltrona vermelha.

Uma casa cheia de madeira escura onde alguém teve a coragem de colocar flores cor-de-rosa por toda parte.

Cor tem essa capacidade.

Ela vira memória.

Talvez seja por isso que, depois de tantos anos tentando fazer nossas casas parecerem silenciosas, estejamos novamente permitindo que elas levantem um pouco a voz.

Não porque o bege acabou.

Ele não acabou.

E nem deveria.

Mas porque talvez tenhamos finalmente lembrado que sofisticação não precisa significar contenção o tempo inteiro.

Uma casa pode ser elegante e engraçada.

Pode ser séria e ter um sofá laranja.

Pode ter uma cadeira importante ao lado de uma almofada completamente exagerada.

Pode mudar.

Pode errar.

Pode ficar estranha durante algum tempo.

Pode ser nossa.

E entre uma casa perfeitamente correta e outra que me faça parar na porta e pensar "meu Deus, quem mora aqui?", eu sei exatamente em qual quero entrar.

CC | Casa e Cor. Cor também conta histórias.

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