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Journal · Design Stories

A cadeira que mudou a forma de sentar

Cesca, Marcel Breuer e a estranha longevidade das coisas realmente boas

Cadeira Cesca, de Marcel Breuer, com estrutura em aço tubular cromado e assento e encosto de palhinha, num ambiente com luz lateral

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Eu tenho uma certa desconfiança de casas onde tudo combina.

O sofá conversa perfeitamente com o tapete, que conversa com a mesa, que aparentemente fez terapia de casal com a luminária antes de entrar na sala.

É bonito. Está correto.

E às vezes é profundamente sem graça.

Talvez por isso eu goste tanto de objetos que parecem ter chegado à casa por caminhos diferentes. Uma cadeira encontrada anos atrás, um livro comprado numa viagem, uma cerâmica que ninguém sabe exatamente onde colocar, um quadro que teoricamente não combina com nada e, justamente por isso, funciona.

A Cesca é uma dessas coisas.

Você provavelmente já viu uma.

Estrutura tubular cromada, assento e encosto de palhinha, madeira contornando as duas partes. Não tem quatro pés. A estrutura faz uma curva e a cadeira parece quase suspensa.

Hoje ela aparece em apartamentos de São Paulo, casas em Copenhagen, restaurantes em Paris, editoriais de moda e, inevitavelmente, em milhares de pastas do Pinterest.

Só que a Cesca não nasceu para ser cool.

Ela nasceu de uma obsessão muito mais interessante.

Antes da cadeira, havia uma bicicleta

Marcel Breuer tinha pouco mais de vinte anos quando começou a dar aulas na Bauhaus.

A escola alemã fundada por Walter Gropius em 1919 estava tentando responder a uma pergunta enorme: como deveriam ser os objetos, os edifícios e a vida cotidiana de um mundo que havia mudado?

Arte, arquitetura, indústria e artesanato estavam sendo colocados na mesma conversa.

E Breuer ficou fascinado por uma coisa bastante banal: o guidão de sua bicicleta.

O tubo de aço era leve, resistente e podia ser curvado sem perder sua força.

E aí veio aquela pergunta que geralmente está por trás das coisas realmente boas: e se fizéssemos móveis assim?

Breuer começou a experimentar o aço tubular no mobiliário. Dessa investigação surgiram algumas das peças mais importantes do design moderno, incluindo a famosa cadeira Wassily.

Mas a cadeira que acabaria entrando de maneira quase silenciosa na vida cotidiana viria um pouco depois.

Em 1928, Breuer desenhou a cadeira B32.

Hoje nós a conhecemos como Cesca.

A parte mais bonita é justamente a contradição

O que eu mais gosto na Cesca não é o cromado.

É a palhinha.

Porque Breuer poderia ter feito uma cadeira completamente industrial. Fria, metálica, racional.

Mas colocou no meio daquela estrutura moderníssima um material que carregava uma história completamente diferente.

Palha de Viena.

Uma técnica associada ao mobiliário europeu do século XIX e às cadeiras de café que já existiam muito antes da Bauhaus.

De um lado, aço tubular, máquina, indústria, futuro.

Do outro, madeira, fibra natural, artesanato, memória.

E estranhamente aquilo funciona.

Talvez seja justamente por isso que a cadeira envelheceu tão bem.

Ela nunca pertenceu inteiramente a uma época.

E então apareceu Mart Stam

Como toda boa história do design, existe uma pequena confusão no meio.

Breuer não foi o único experimentando cadeiras sem os tradicionais quatro pés.

O arquiteto holandês Mart Stam havia apresentado pouco antes uma cadeira cantilever feita com tubos metálicos. Mies van der Rohe também estava investigando a mesma ideia.

Havia naquele momento uma espécie de corrida silenciosa para descobrir até onde uma cadeira poderia ser reduzida.

O princípio era radical para a época.

Eliminar as pernas traseiras.

O peso do corpo seria sustentado pela própria estrutura contínua.

Hoje olhamos e pensamos: sim, é uma cadeira.

Na década de 1920, aquilo parecia quase desafiar a lógica.

E talvez essa seja uma das coisas mais fascinantes sobre design.

Quando uma invenção funciona muito bem, algumas décadas depois ela parece óbvia.

Esquecemos que alguém precisou imaginá-la primeiro.

Mas por que "Cesca"?

Aqui entra uma parte da história de que eu gosto particularmente.

A cadeira não nasceu oficialmente com esse nome.

Breuer a chamou de B32.

Décadas depois, quando a italiana Dino Gavina começou a produzir seus móveis, a cadeira ganhou o nome pelo qual ficaria conhecida.

Cesca era o apelido de Francesca, filha adotiva de Breuer.

Uma das cadeiras mais reproduzidas da história do design carrega, portanto, um nome doméstico.

Quase íntimo.

Eu acho isso maravilhoso.

Porque tira a peça daquele pedestal de "ícone do modernismo" e devolve um pouco de humanidade a ela.

O problema de virar um clássico

Existe uma pequena tragédia reservada aos objetos que dão muito certo.

Eles começam a aparecer em todo lugar.

E quando alguma coisa aparece demais, começamos a deixar de enxergá-la.

A Cesca passou por isso.

Foi produzida, licenciada, reinterpretada, copiada e reproduzida incontáveis vezes.

Depois voltou.

Saiu.

Voltou novamente.

Agora está outra vez em apartamentos contemporâneos, muitas vezes ao redor de mesas antigas, ao lado de sofás enormes, tapetes persas, obras abstratas e luminárias de épocas completamente diferentes.

E é justamente assim que eu mais gosto dela.

Não numa sala tentando recriar 1928.

Mas numa casa de hoje.

Casas interessantes não são máquinas do tempo

Eu não quero uma casa Bauhaus.

Também não quero uma casa anos 70, uma casa mid-century ou uma casa que pareça ter sido comprada inteira numa terça-feira à tarde.

Quero uma casa onde as coisas tenham idades diferentes.

Uma Cesca de 1928 pode ficar ao lado de uma obra contemporânea.

Um tapete persa pode estar debaixo de uma mesa modernista.

Uma cerâmica comprada semana passada pode dividir espaço com um livro que está ali há vinte anos.

É nessa mistura que uma casa começa a contar alguma coisa sobre quem mora nela.

E talvez seja essa a verdadeira razão pela qual continuamos falando da Cesca quase cem anos depois.

Não é porque ela voltou a estar na moda.

É porque, quando um objeto é realmente bom, ele consegue sobreviver à própria moda.

A Cesca já foi futuro.

Já foi comum.

Já foi esquecida.

Já foi vintage.

E agora é desejo outra vez.

Eu não apostaria contra ela.

Essa mesma cadeira está na nossa curadoria do Shop, se você quiser uma na sua casa.

CC | Casa e Cor. Design tem autor.

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