Tem uma coisa que me fascina na história da arte: ela adora fingir que tudo aconteceu numa ordem muito organizada.
Primeiro veio isso. Depois aquilo. Então apareceu alguém, rompeu com tudo e pronto: começou um novo movimento.
Seria ótimo se fosse assim.
Só que, de vez em quando, aparece uma pessoa que estraga completamente a cronologia.
Hilma af Klint é uma delas.
Quando comecei a olhar para o trabalho dela, minha primeira reação não foi exatamente intelectual.
Foi mais simples: como isso pode ter sido pintado há mais de cem anos?
Aquelas cores.
Os círculos.
As espirais.
As formas botânicas.
As geometrias quase cósmicas.
Algumas obras poderiam estar penduradas hoje numa casa em São Paulo e ninguém entraria na sala pensando: "Ah, claro. Suécia, 1907."
E talvez seja aí que a história fique realmente interessante.
Antes da abstração ter um nome
Hilma af Klint nasceu na Suécia em 1862 e estudou na Royal Academy of Fine Arts, em Estocolmo.
Isso já diz alguma coisa sobre ela.
Hilma não era uma mulher que simplesmente decidiu pintar escondida num quarto.
Ela tinha formação acadêmica e trabalhava profissionalmente como artista.
Pintava retratos e paisagens. Sabia perfeitamente fazer aquilo que se esperava de uma pintora treinada no final do século XIX.
Só que havia uma segunda Hilma acontecendo ao mesmo tempo.
Uma mulher profundamente interessada em espiritualidade, ciência e na possibilidade de existir alguma realidade além daquilo que conseguimos enxergar.
E essa Hilma começou a pintar outra coisa.
Muito antes de Kandinsky publicar seu famoso tratado Do Espiritual na Arte, em 1911, ela já estava produzindo trabalhos radicalmente abstratos.
É aqui que a cronologia confortável da história da arte começa a ficar um pouco bagunçada.
Cinco mulheres numa sala
Existe outra parte dessa história que eu adoro.
Hilma fazia parte de um grupo chamado De Fem, "As Cinco".
Cinco mulheres.
Elas se encontravam regularmente para estudar espiritualidade, realizar sessões e produzir desenhos automáticos.
Hoje talvez a gente imagine isso como uma excentricidade.
Mas o final do século XIX estava cheio dessas contradições maravilhosas.
Ao mesmo tempo em que novas descobertas científicas estavam transformando a compreensão do mundo, havia enorme interesse pelo invisível, pelo espiritual e pelo que poderia existir além da matéria.
Raios X haviam acabado de revelar que era possível enxergar aquilo que antes estava escondido dentro do corpo.
Ondas eletromagnéticas existiam sem que pudéssemos vê-las.
Átomos estavam mudando nossa ideia de matéria.
Talvez imaginar um mundo invisível não parecesse tão absurdo naquele momento.
Hilma queria pintá-lo.
Então vieram as pinturas para um templo que não existia
Em 1906, ela começou um projeto gigantesco que chamaria de Paintings for the Temple.
Foram quase duzentas obras.
E dentro desse projeto existe uma série impossível de ignorar.
The Ten Largest.
Dez pinturas monumentais feitas em 1907.
São enormes.
Quase três metros de altura.
E estão cheias de flores, círculos, espirais, letras, formas orgânicas e cores que parecem ter sido escolhidas ontem.
Hilma af Klint, Group IV, The Ten Largest, No. 7, Adulthood, 1907.
As dez obras representam diferentes fases da vida humana.
Infância.
Juventude.
Maturidade.
Velhice.
Mas Hilma não pinta uma criança, uma mulher adulta ou uma senhora.
Ela transforma a vida em cor, ritmo, símbolo e forma.
É quase como se estivesse tentando criar um vocabulário para coisas que não possuem imagem.
E isso me pega.
Porque nós estamos acostumados a pensar na abstração como uma ruptura estética.
Com Hilma, parece outra coisa.
Parece uma tentativa de comunicação.
O cisne não é apenas um cisne
Entre as obras dela que mais me interessam está a série The Swan.
Em algumas imagens aparecem dois cisnes, um claro e outro escuro.
Depois, conforme a série avança, os animais praticamente desaparecem.
Sobram círculos.
Divisões.
Geometrias.
Preto.
Branco.
Cor.
A figura vai sendo desmontada até virar símbolo.
O cisne aparece associado a ideias de dualidade e união de opostos, temas que atravessam boa parte do trabalho de Hilma.
Matéria e espírito.
Masculino e feminino.
Claro e escuro.
Visível e invisível.
E talvez seja por isso que The Swan No. 1 ainda tenha uma força tão estranha.
Você não precisa conhecer absolutamente nada disso para gostar da imagem.
Mas quando conhece, ela deixa de ser simplesmente um quadro gráfico em preto e branco.
E é justamente aí que mora a diferença.
Ela sabia que o mundo talvez não estivesse pronto
Essa parte da história é quase inacreditável.
Hilma af Klint produziu um conjunto extraordinário de trabalhos e decidiu que uma parte importante deles não deveria ser mostrada publicamente enquanto estivesse viva.
Em seus registros, determinou que as obras permanecessem guardadas por pelo menos vinte anos depois de sua morte.
Hilma morreu em 1944.
Durante décadas, grande parte daquele universo permaneceu praticamente fora da narrativa dominante da arte moderna.
Pensa nisso.
Você cria alguma coisa radicalmente diferente do que está acontecendo ao seu redor e, em vez de tentar convencer todo mundo de que aquilo é importante, aceita a possibilidade de que talvez sua época simplesmente não consiga entendê-la.
Há alguma coisa profundamente bonita e um pouco perturbadora nisso.
E então o futuro finalmente encontrou Hilma
Décadas depois, sua obra começou a receber a atenção que não teve em vida.
E em 2018 aconteceu algo extraordinário.
O Guggenheim, em Nova York, realizou a exposição Hilma af Klint: Paintings for the Future.
O título dificilmente poderia ser melhor.
A exposição se tornou um fenômeno e apresentou seu trabalho a um público gigantesco.
A mulher que acreditava estar pintando para um tempo que ainda não havia chegado finalmente encontrou esse tempo.
Mais de setenta anos depois de morrer.
Talvez seja por isso que eu queira Hilma dentro de uma casa
Existe uma tendência de tratar arte importante com uma solenidade que às vezes cria distância.
Museu.
Parede branca.
Silêncio.
Texto curatorial.
Não chega perto.
Só que eu gosto da ideia oposta.
Gosto de imaginar uma obra de Hilma convivendo com uma cadeira de palhinha, uma pilha de livros, uma luminária estranha, uma cerâmica comprada numa viagem e uma taça esquecida sobre a mesa.
Porque arte também pode fazer parte da vida cotidiana.
E quando você sabe o que está olhando, a relação muda.
Você deixa de pensar: "esse quadro ficaria lindo sobre meu sofá."
E começa a pensar: "espera. Quem era essa mulher?"
Para mim, é exatamente aí que uma obra começa a pertencer a uma casa.
Não quando combina com ela.
Quando acrescenta alguma coisa à conversa.
Formas do Invisível
Foi desse universo que nasceu nossa curadoria Formas do Invisível.
Não como uma seleção de "quadros abstratos".
Mas como um convite para olhar algumas imagens sabendo que, por trás daqueles círculos, cisnes, cores e geometrias, existia uma mulher tentando representar algo que acreditava não poder ser visto.
E talvez Hilma estivesse certa sobre uma coisa.
Algumas imagens precisam esperar até encontrarem os olhos certos.
CC | Casa e Cor. Design tem autor.
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